terça-feira, 22 de dezembro de 2009

No Mais - Poema Noturno 02:08


No mais - Wesley Faria

No mais, vai tudo bem,
Sem nenhum poema pra me iluminar
No mais, vem vindo alguém,
Com uma velha boa nova, pra me dar
No mais, não sei mais não, a vida no chão,
A vida se vai, pra trás.

No mais, vai tudo bem,
Sem mais ninguém, pra perturbar,
Pra me arrancar da cama, às três da manhã, a vida tão vã,
e sã sem sal.
No mais, vou ler meu jornal, pra mim tanto faz se chove ou faz sol,
No mais, não quero falar, vou ir por aí, vender o meu pão,
No mais, plantar uma flor, morrer de amor, ou de solidão.

O Menino sem sombra – Wesley Faria

Todos os dias ele passava diante do espelho e tinha a certeza inenarrável de que não fazia a mínima diferença para o mundo que o cercava. Pensava que era uma espécie rara, um ser em extinção, em extinção até mesmo do dicionário, um menino sem sombra, sem chance de ser notado, achava que seu receptáculo de sonhos, sua caixa torácica estava vazia, sem vontades e objetivos era de se esperar que ele tivesse medo de tudo, medo de estrelas, da noite, do sol, do açoite, do choro e do riso, do áspero e do liso.
De fato não tinha muito do que se gabar, só mesmo do que se amedrontar. Só não tinha medo do silêncio, que lhe varria a alma diariamente, que lhe sussurrava ao pé d'ouvido o quanto ele era bonito, o silêncio, seu amigo de sempre que lhe acolhia pelas noites, que cantarolava sonetos ultra-românticos que lhe embalavam a alma.
Mas algo estava fora do normal e ele já suspeitava. Seu jornal não lhe dava mais cobertura, seu papelão não lhe esquentou de fato, deu falta até do seu sapato, que embora furado, sem cordão ou palmilha, para proteger do chão era uma maravilha.
Nada de escuro ou de pensares noturnos, naquela noite, naquela soturna noite ele ouviu um som que mudaria pra sempre sua vida sem sombra. Era um som estranho, um tanto quanto agudo, um tanto quanto sutil, uma candura de som, um som que deslizava lentamente para seus ouvidos. Levantou-se e deixou-se levar pelo som, o seguiu por entre as ruas, os becos, os cães e guetos até que encontrou um jeito de observar sem ser notado, por cima de um muro.
Um homem estranho se movendo de forma estranha, com um arco na mão, que mais parecia uma vara de se bater em criança levada, assim como acontecera durante toda sua vida, mas ele não sentia medo, afinal era um som tão harmonioso e cativante que ele saltou o muro e caminhou para mais perto. O homem, por sua vez, não parava de tocar, de solfejar aquelas notas mágicas, aqueles sons estranhos que lhe atraía, mais e mais. Por um minuto o menino sem sombra pensou sentir algo diferente, mas como pode? Ele não sentia, não pensava, ao menos era o que aparentava, porém, e sempre existe um porém, o menino viu algo que lhe assombrou a alma, que aliás não sabia que tinha. Ele se viu cantarolando, bailando sobre o luar, embalado pelas notas saltitantes que saiam do instrumento deveras curioso.
Tratava-se de um violino, rajado e tigrado, 4 quartos, arqueado por um músico apaixonado, nos seus olhos o menino enxergava a lua, o céu estrelado e os sonhos, a muito esquecidos, até mesmo os não sonhados olhavam pra ele através dos olhos do senhor de vestes distintas, casaca meio fraque e cartola combinando. O menino sem sombra ficou toda a noite em claro, embasbacado diante daqueles sons, e a noite foi pequena para a extensão de seus sonhos, tão pequena que logo raiou o sol, o rei das cores e calores, que de tão quente, tanto que o musico foi obrigado a guardar seu violino em sua caixa preta e ir-se por entre as sombras das árvores da calçada, o que deixou o menino, pensante e com um sorriso estampado em sua carinha estonteada. Pôs-se a caminhar de volta e tinha agora, apenas um pensamento a seguir, aquela musica o dominara por completo e ele repetia pra si mesmo o quanto era doce redescobrir o sonho, e, pouco a pouco foi percebendo que o sol iluminava seu corpo e algo mágico acontecia sob seus pés, sua sombra pouco a pouco aparecia, o que o fazia pensar que a única coisa que faltava para seu surgimento era se deixar luzir pelo sol, ou pelo sonho, já não fazendo mais importância a ordem das palavras, só mesmo seus sentidos. O sol, a sombra e o menino eram feitos da mesma matéria, os sonhos, que agora se reinventavam diariamente em sua mente, metas e objetivos calcados na arte.
Enfim, o menino sem sombra agora poderia ser notado, visto como um ser que pensa, ser que sonha, um ser vivo.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Meu peito é teu.

Recosta teus olhos em teu leito de repouso,
Sente teu peito luzir e ser acariciado pelos brancos brilhos d'aurora.

Enrosca teus sonhos nos pensares mais leves e tenta ter calma ao menos por uma noite,
Abre teu coração como flor em botão e torna viva a cor de tua alma.

Se sentires falta de algo como uma canção a tira colo, ao leito da janela, avisa-me que encontro teu penar e alivio-te a dor, levo o som do banjo pra tua janela e sussurro baixinho para não perturbar a calma da noite que dorme.

Recosta teu sono em meu peito e diz-me quanto dói o "não ter" de amor que lhe rasga o peito.
Faça um desejo, jogue uma moeda, veja uma estrela cadente e sorria, Meu peito é teu.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

INSÔNIA!

Donde vem a luz que me remove os sonhos?
Donde vem tal som que emudece a noite?
Donde vem o trepidar que me acolhe o peito?
Donde vem o incômodo vento quente que me toca a fronte?
De certo que não me encontro a pestanejar
De certo não tenho o sonhar
De certo não acho nem certo a tal desejar
Porém o que quero dizer é o não dizer,
E o que quero desejar é o não desejar, o desdizer,
O Destruir dos verbos em seus particípios e plurais
Quero o silêncio, o santo sepulcro dos vendavais
Quero o dormir o sono dos amantes, que esperam os amores de um novo dia
Quero arrancar a insônia da alma, que de fato me deixa vazia
Quero o não saber, por algumas horas, o luzir de um dia pela janela
Quero a janela, quero a paisagem de um dia claro,
Mas o quero pela manhã, por enquanto só quero dormir.

domingo, 25 de outubro de 2009

Já corri demais

Da janela posso ver o poente, que nunca toco.
Pela porta passam os vultos dos sonhos antigos, que não mais irão voltar.

E debaixo da macieira uma velha, sentada e sorridente, com um cesto de maçãs podres nas mãos, em cada maçã um sonho, em cada sonho um odor diferente.

Os pés só caminham mais dez ou vinte passos, nada mais de quilômetros, eu já corri demais e agora quero sentar e descansar, mesmo que a única coisa que tenha para comer sejam essas maçãs...podres.



Para minha avó distrímica.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Mar Morto

Não vi o sol essa manhã, seu brilho não refletiu nas ãguas do mar como um vulcão prestes a explodir sua luz na'reia. Não vi as ondas, com voracidade, lamberem a praia.Não ví sequer um surfista beira mar fazer sinal da cruz, não ví. Nem gaivotas nem estrelas-do-mar ou velhinhas se banharem com seus maios cheios de flores, nem velhinhos na cadeira mirando o horizonte. Não ví tatuagens, nem biquinis pequeninos tapando o que se quer mostrar. Não ví.
Vi apenas uma inércia marítma cheia daquela nostalgia que fazem os escritores se inspirarem. Hoje pela manhã, o mar estava morto.

domingo, 4 de outubro de 2009

Quem volta do mar

Num canto de Iara percebo a mudança das ondas,
A lestada forte que renoa o negrume das águas.
Os pescadores que se entrelaçam com a neblina
E a neblina que definha lentamente rumo a praia.
O perfume suave da manhã que começa tomar o cais
Num turvo amanhecer que se despe para o dia vestido de sol
O negrume, agora pardo, se transforma num verde água apaixonante.

O mar e o dia parecem sorrir,
Vejo calcanhares molhados,
Pescadores contam suas piadas no bar mais próximo
Mas logo vão pra casa
abraçar suas esposas, flores morenas, louras, multicores,
Que aguardam para ouvir da noite na lida,
Logo vão conversar com Deus,
Olhar nos olhos de suas filhas e abracá-las.

Tomar um café e afagar seus cães.Logo irão dormir.
E tão logo o mar os tomarão novamente e, sutilmente, se vesitirão com a turva e doce neblina, neblina que vem, languidamente, apagará o colorido do mar, dos barcos. Por fim tomará seus corpos descansados mais uma vez, mais uma noite
até que um dia, não mais havendo surpresa, ninguém mais volte da boca da noite.