segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012


O Abacateiro
W.Faria

A chuva cai na terra
o cheiro e o calor
a flor desmancha a guerra
o sonho espanta a dor

o abacateiro ainda tem o nosso nome
entalhado na madeira do quintal
o abacateiro ainda tem o nosso jeito
ainda ouço o cantar do rouxinol

a chuva cai na terra
o cheiro e o calor
a flor desmancha a guerra
o sonho espanta a dor

e aquele livro que tenho na cabeçeira
nem de longe perco tempo em o ler
eu prefiro ter você a minha beira
e assistir o dia nascer e morrer

o abacateiro ainda tem o nosso nome
entalhado na madeira do quintal
o abacateiro ainda tem o nosso jeito
ainda ouço o cantar do rouxinol

as gotas de chuva se lançam
no lago que se faz no chão
são bailarinas que dançam
na palma da minha mão

e o abacateiro se move
no vento pra lá e pra cá
parece que dança comigo
ou me ensina a dançar

a chuva cai na terra
o cheiro e o calor
a flor desmancha a guerra
o sonho espanta a dor

POEIRA
w.faria


ta tudo tão escuro agora que não vejo sequer oq digo
tá tudo tão fora do lugar, que as paredes do apartamento, conversam comigo

não vejo nada, não ouço aquela voz ao telefone,
não sinto que alguém vai me ligar nem que seja pra errar o meu nome.

as plantas precisam de água, não me movo,
o gato se esconde em meus pés, não me movo,
me escondo de mim aqui dentro, não me movo.

a disco dá voltas e voltas no aparelho da sala,
a campainha não toca, nem sei praque fui instalá-la

tá tudo tão fora do lugar, tá tudo tão fora dos meus planos,
que tento me teletransportar, pro alto do oceano.

eu fecho os olhos, me vejo inerte,
eu tento a sorte, pode até ser que acerte.

será que o dia todo ficou cinza?
será que fui só eu quem desistiu?
de achar um bom motivo pra explicar
porque existiu.

é você que faz o meu mundo girar, sem seus passos,
ele pára, ele queda,
ele dorme e eu caio,
ele acha, eu me distraio,
não o vejo, não o noto,
fico a beira, viro ar,
só poeira.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Doce de goiaba
Wesley Faria e Deia Pereira

Tem café, tem pó, tem bolo, tem doce de goiaba.
tem café, tem pó, tem bolo, tem doce de goiaba.

tem pó, temporal,
tempo, Temporal é oq desfaz a nuvem,
corre tira a roupa do varal,
tem pó, temporal,
tempo, Temporal é oq desfaz a chama, cria a lama no quintal,

me dá uma nuvem que te dou o meu formato,
me dá uma corda que te acordo com meu laço,
desfaço, pedaço, sou teu...
tempo...temporal,
tem pó, temporal é oq desfaz a nuvem,
corre tira a roupa do varal,
tem pó, temporal,
tempo, Temporal é oq desfaz a chama, cria a lama no quintal.

me dá um acorde que te dou meu violão,
me dá um beijo que te faço uma canção.

no meu baralho o par de ases criam asas,
se voam sempre juntos por cima das casas,
pares, de asas....
Paris tem luz, tem lilás, tem feliz, aliás,
Tem tempo que não faço uma canção.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Quem vem lá?



Quem vem lá?
W.Faria

Quem vem lá?
Quem desce a ladeira
Com mãos atadas em nó?
Quem vem lá?
Quem me enche de histórias pra contar?
Quem é aquele que chega como tormenta,
Fica como lagoa ou açude,
E se vai como rio para um espaço maior?
Ele vem, sei que vem, mas quem vem lá?
Por trás do monte vermelho,
Por entre as serras talhadas pelo laminar do vento,
Por mais que queira não o vejo bem,
Ainda que veja não entendo,
Ainda que entenda, tenho medo.

Medo de me quedar descalço,
Sobre o chão pálido e frio,
Sobre a umidade causada pelos antigos sentires,
Devo estar sonhando, germinam em minha frente brotos de amor,
Flores de sorriso, lágrimas de paz,
Um minuto de silêncio para tratar dos meus feridos
Sem deixar nenhum para trás.

Então me diga quem vem lá?

Neste ir e vir que oscila entre tropeços e corridas,
Neste chegar, que rasga minha paz, queima meu tempo,
Come minha comida, deita em minha cama,
Faz cama da minha paz e se vai,
Parte para outro campo,
Faz cena de novos tempos,
Faz tempo de novas cenas,
Incendeia pastos,
Desvaloriza astros,
Torna ébrio o poeta,
Faz do agora eternidade.

Se vai, como se nunca houvesse chegado,
Como se nunca me houvesse desejado,
E eu, fico aqui,
Sentimento acorrentado,
Coração recém-flechado,
Orando baixo com meu sangue pisado.

Vê meu olho mareado?
Vê minha mão que treme?
Vê meus pés que param?
Vê meu peito que gela?
Vê a mim?
Vê a mim?

Jovem alma que espera o luzir da luz mais amarela do amor,
Que senta diante do rio e espera a Iara me lavar a dor,
Mirando a água e meu reflexo torpe, diluído em tons borrados,
Tentando entender meus passos e porque estão parados,
Tentando esquecer meus mortos, plantando de novo no descampado,
Sussurrando o que não quero mentir, mentindo tudo que sussurro.

Ele veio como vento, me tomou como brisa, me tocou como chuva,
E se foi como rio.

Eu, que nunca soube nadar, permaneço como canoa que desliza,
indo, pouco a pouco, para o alto mar.
Ave negra.
W.Faria

Sempre que a tarde finda,
No romper do horizonte,
O sol morre além do monte,
Como soldado alvejado.
Deixa seu rastro de sangue-sol no céu por todo o lado,
Quando cai, num vida-semvida oscilado,
Atrai homens sós, casais aos nós e mãos dadas por tras.

O cheiro da queda do astro atrai a ave negra,
Que não é de rapina,
Traz o tom e o traquejo que a vida ensina,
Voando e saltando por lá,
É uma ave volteada,
Que lembra o tom da madrugada e se alimenta do que há.
Uma ave assim tão antiga,
Pode ser avó ou tia do avô do sabiá,
Dizem que até cristo quando andava na terra,
Reparando toda a guerra depois q o homem cruzou o mar,
Esse bicho já voava, num pousa-pula sem par.

A ave avó-das-aves que é membro da criação,
Deveria ter barba branca como as nuvens que sombreiam o chão,
Para lembrar que desde que o mundo é mundo sempre existiu o segundo,
o primeiro e o ateu,
O segundo guia a morte,
Cruza os campos e engana a sorte,
O primeiro se faz no sol na vida em grande lote,
E o ateu existe para lembrar a cada ser vivente,
Que mesmo o sol, cavalheiro elegante,
Morre a míngua na batalha do grande fronte,
Se não acreditarmos, não rirmos e não chorarmos,
Se não tivermos certeza, sem a mínima delicadeza,
Que existe um outro lado do monte.

sábado, 4 de fevereiro de 2012


Negro Deus
W.Faria



Negro-deus.
W.Faria

Mesmo que quedem os astros, mesmo que desatem os nós,
mesmo que o inferno se gele, ainda estaremos a sós.

Mesmo em meio ao nevoeiro de gente, com gritos e faces latentes,
mesmo que os anjos caminhem pela fresta podre do mundo,
migrando norte-sul, num ir e vir vagabundo.

Mesmo que a dor das aldeias incendiadas pelo fogo branco,
Alcance as veredas do céu, criando nelas um ambiente brando,
e as cores dos cocares se tornem pálidos quadros na parede da vida.

Ainda assim, torpe, sujo, inerte e pálido,
Surgirão do rastro de pó vermelho,
Como um relâmpago rasgando o céu,
Um homem mouro, vermelho-douro,
Moreno nobre, um negro deus que salva réus.

Erguerá em voz altiva que ainda tem e sempre terá,
A flecha decisiva que findará o conflito das cores,
A flecha que voa qual bala que brilha,
A mão do arcanjo envolta em neblina,
O passo da viúva ao lado do cortejo
Rumo ao fim, rumo ao último beijo.

Lançará mão do teu eu mais íntimo e será o eu-coletivo,
Vivendo do som dos tambores, açoites de um tempo que passou,
Negro-deus, pai de poucos, voz de muitos, deus dos loucos,
Dirá com certeza na voz que já se quedaram os astros,
Se desataram os nós, e mesmo assim ainda estamos a sós.

-
Um poema para quem vive crendo que o salvador virá, ele já veio e já foi, ele vem a cada dia, ele vai a cada minuto, como um cacheiro viajante, um aviãozinho do morro, que leva pra cima o pedido de socorro. Um poema para quem crê que somos deuses, cada um de nós com seus discípulos e missões e principalmente, calvários.

W.Faria